BRASIL, São Paulo - Instigada pelo apagamento da memória africana, a pesquisadora norte americana se dedica a tratar questões de raça, gênero e políticas territoriais


Yolande Daniels | Créditos: Casa Vogue

Foi uma visita à Casa dos Contos, em Ouro Preto (MG), em 1996 que catalisou um insight da arquiteta Yolande Daniels e catapultou suas pesquisas acadêmicas nos anos seguintes. Daniels observou no Brasil algo que contrasta com o que havia vivenciado nos EUA: aqui há uma quantidade significativa de museus dedicados à história da escravidão, mas percebeu que, apesar de estarem preservados, corriam o risco de passar despercebidos, porque não havia explicações sobre eles. Na própria Casa dos Contos, por exemplo, a arquiteta constatou que a senzala não constava nas plantas dos edifícios, apesar de conter um acervo rico e preservado. A partir daí dedicou sua carreira acadêmica a recompor as narrativas do povo negro. Em entrevista à Casa Vogue deste mês, Daniels revela as descobertas de suas pesquisas nos últimos anos.

À frente do Studio Sumo, um premiado escritório de arquitetura nos Estados Unidos, Daniels encabeça projetos arquitetônicos ao redor do mundo. Levar em conta contextos sociais no desenvolvimento de cada trabalho é a premissa do escritório, sempre embasado nas sólidas pesquisas conduzidas individualmente por Yolande e seu sócio, Sunil Bald.

Presença marcada em instituições como MIT, Harvard e Columbia, a arquiteta norte-americana atualmente é professora-assistente na University of Southern California (USC) e leciona a disciplina Cidade Negra: Infraestrutura e Ecologias do Outro em Los Angeles.

Confira a seguir trechos da Entrevista
Como foi a experiência de documentar espaços de escravidão no Brasil?
Em minha primeira viagem, acompanhando meu marido na época [Sunil Bald, seu parceiro no Studio Sumo até hoje] quando ele era bolsista do Programa Fulbright, me intrigou a quantidade de museus dedicados à história da escravidão, além dos muitos artefatos daquele período, algo que não tínhamos nos Estados Unidos. Ao voltar para casa, montei uma proposta de pesquisa a fim de obter uma bolsa de estudos, retornar ao Brasil e analisar esses objetos. Como resultado desse mergulho, escrevi um ensaio sobre um grupo de itens da Casa dos Contos [em Ouro Preto, MG]. Embora se encontrassem bem conservados e dispostos no porão, antiga senzala do casarão, os componentes do acervo corriam o risco de passar despercebidos, porque não havia explicações sobre eles. O mesmo vale para a senzala em si, que não aparece nas plantas. Eu me interessei por esse espaço e seu conteúdo, ambos ao mesmo tempo presentes e ausentes.

Essa vivência influenciou seus passos seguintes?
Minha obra procura entender como o passado informa o presente. Fiquei envolvida com essa investigação no Brasil até 2000, quando dei uma palestra sobre o tema. Depois, passei a enfocar o assunto dentro dos Estados Unidos. Aqui, inexistiam artefatos e construções. Como evocar uma história arquitetônica e espacial da escravidão sem eles? Então, me concentrei nos textos disponíveis, tática que já havia utilizado quando li Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre [Global Editora, 728 págs.]. Achei muitos relatos dos anos 1930 e 1940 registrados pela Works Progress Administration [WPA, órgão reba-tizado em 1939 para Works Projects Administration]. Ao lidar com a diáspora africana, devemos farejar pistas, achar vestígios da história. Se cada projeto me capacitou a fazer isso melhor, o marco zero de tudo se deu no Brasil.

O Studio Sumo concebeu dois espaços dedicados à arte africana, o Museum of Contemporary African Diasporan Arts e o Museum for African Art, ambos em Nova York. Em encomendas deste tipo, a ascendência faz diferença?
Sim e não. Sim porque, na arquitetura, algumas histórias são deixadas de lado, ou melhor, excluídas mesmo. A abordagem não favorece o engajamento necessário para valorizá-las e incluí-las. Por precisar de ajuda para lidar com o fato de que minha própria área de atuação nega minha existência, quero agir a fim de contribuir criativamente para o mundo. É muito difícil atuar numa profissão que não reconhece sua presença. Portanto, desse ponto de vista, a resposta é sim. Frequentemente, durante a graduação, eu me sentia oprimida e silenciada, por isso fui atrás de conhecimentos em outros campos. Recorri a disciplinas ligadas às pessoas, à sociedade, ao direito, para formular o que me atormentava e, depois, perseguir respostas dentro da arquitetura. Por outro lado, todo profissional deve saber fazer as perguntas pertinentes a um determinado trabalho e envolver-se com sensibilidade, independentemente de sua identidade cultural. No fim das contas, alguém capaz de questionar o que acontece à sua volta se torna mais apto a desenvolver qualquer tipo de encomenda.

A reportagem na íntegra pode ser lida na próxima edição da Casa Vogue, que entra em circulação a partir de agosto.

Sobre a Casa Vogue
Casa Vogue é a revista de maior prestígio do Brasil em decoração, design, arquitetura e lifestyle. Autoridade máxima em comportamento e tendências, todos os meses ela encanta e inspira os amantes do bom viver.

Fonte: divulgação por e-mail

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