BRASIL, Rio de Janeiro - Criado em 1952 por Nise da Silveira (1905-1999), o Museu de Imagens do Inconsciente estará representado na 11ª Bienal de Berlim, a partir do próximo dia 5 de setembro, com curadoria de María Berríos, Renata Cervetto, Lisette Lagnado e Agustín Pérez Rubio.

Obra de Carlos Pertuis (Coleção Museu de Imagens do Inconsciente, RJ - divulgação)

Os curadores selecionaram 22 obras dos artistas Adelina Gomes (1916-1984) e Carlos Pertuis (1910-1977).

Lisette Lagnado destaca: “A luta antimanicomial da Dra. Nise da Silveira, que se traduziu na prática do afeto e do calor humano reinante nos ateliês de atividades expressivas, permitiu amenizar a dor psíquica do esquizofrênico, e nos revela a extraordinária potência da criação a despeito de pertencer a vidas danificadas”.

Filha de camponeses, Adelina Gomes nasceu em Campos, estado do Rio de Janeiro, fez o antigo curso primário e aprendeu variados trabalhos manuais em uma escola profissional. Aos 18 anos se apaixonou por um homem que não foi aceito pela família. Tornou-se cada vez mais retraída, sendo internada em 1937, aos 21 anos. Começou a frequentar o ateliê de pintura criado por Nise da Silveira em 1946. Produziu com intensa força de expressão cerca de 17.500 obras, e faleceu em 1984. Sua produção plástica e as pesquisas daí desenvolvidas por Nise da Silveira ao longo dos anos se tornaram objeto de exposições, filmes, documentários e publicações.


Adelina Gomes. Óleo sobre tela. 11/4/1962 (Coleção Museu de Imagens do Inconsciente, RJ - divulgação)

Carlos Pertuis nasceu no Rio de Janeiro. De natureza sensível e religiosa, com a morte do pai deixou de estudar e foi trabalhar em uma fábrica de sapatos. Em uma manhã, raios de sol incidiram sobre um pequeno espelho de seu quarto, e ele ficou deslumbrando com o brilho extraordinário, seguido de uma cósmica – “O Planetário de Deus”. Ele gritou e chamou a família, para que todos também vissem o deslumbramento ali diante dele. Foi internado no mesmo dia no Hospital da Praia Vermelha, em setembro de 1939. Em 1946, começou a frequentar o ateliê da Seção de Terapêutica Ocupacional, onde pintou sua visão “O Planetário de Deus”, imagem que traz no centro uma flor de ouro, símbolo do sol e da divindade. Carlos mergulhou vertiginosamente à esfera das imagens arquetípicas, dos deuses e dos demônios, produzindo com intensidade cerca de 21.500 trabalhos – desenhos, pinturas, modelagens, xilogravuras e escritos – até sua morte em 1977.

Instalado no bairro Engenho de Dentro, zona norte do Rio, o Museu de Imagens do Inconsciente tem dois projetos em curso. Um deles, de arquitetura e urbanismo, cria o Parque Nise da Silveira, uma grande área verde integrando ainda um prédio anexo, que estava em desuso e foi incorporado ao Museu em setembro de 2018. O estudo deste projeto arquitetônico, que há dois anos recebeu o apoio do IBRAM e do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, está nas mãos do Prefeito Crivella, aguardando sua assinatura.

Está em processo final para liberação de recursos uma Emenda Parlamentar do Dep. Marcelo Calero, que prevê: a construção de um site bilíngue com 400 obras e textos informativos; um inventário de 22 mil obras do lote das 128 mil tombadas pelo IPHAN. Do universo de 400 mil obras do acervo, apenas 16 mil estão inventariadas.

E em breve o Museu vai iniciar a terceira fase do matchfunding com o BNDES – que coloca dois reais para cada real doado – para uma obra no prédio recentemente anexado, que irá abranger a reforma do telhado, parte elétrica e de banheiros, poda das árvores, além de aumentar a área expositiva do Museu. A primeira fase deste projeto foi iniciada em janeiro, e uma bem-sucedida campanha se bateu a meta de R$ 244 mil, e em seguida uma segunda meta de R$ 278 mil (https://benfeitoria.com/imagensdoinconsciente). Entre os apoiadores, estiveram a artistas Maria Bethânia e Glória Pires.


Fonte: https://benfeitoria.com/imagensdoinconsciente

Lançamento de livros, exposições e Sociedade de Amigos
A diretoria da Sociedade de Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, presidida por Marcos Lucchesi, grande amigo da dra Nise, tomou posse em 2018, e tem como vice-presidente o compositor e museólogo Eurípedes Júnior, que trabalhou com ela, e acabou de escrever o livro "Do asilo ao Museu – Nise da Silveira e as coleções da loucura", sua tese de doutorado, ainda sem data de lançamento.

Outro livro, recém-editado, é "Cartas a Spinoza", com textos de Nise da Silveira, em uma terceira edição revista, com dois mil exemplares impressos graças ao apoio de Max Perlingeiro, do Conselho Deliberativo da Sociedade de Amigos do Museu. O livro foi escrito por Nise da Silveira por incentivo de Marcos Lucchesi. Ela começou a estudar Spinoza quando esteve presa em Alagoas, em 1937/38.

Outros dois livros – “O Mundo das Imagens” e “Imagens do Inconsciente” – têm novas edições previstas pela editora Vozes, pois estão esgotados e são muito solicitados por estudiosos, pesquisadores e interessados pelo assunto.

Está ainda prevista a exposição “Imaginária e Arquitetura”, no Museu, durante o Congresso Mundial de Arquitetura UIA Rio, que será realizado no Rio de Janeiro em julho de 2021.

Texto da curadora: Lisette Lagnado
O escopo curatorial da 11ª Bienal de Berlin (adiada devido à pandemia da Covid-19 para o período de 05 de setembro – 01 de novembro de 2020) procurou examinar vários sentidos que derivam da noção de “experiência”, desenvolvida pelo artista e arquiteto do modernismo antropófago, Flávio de Carvalho (1899-1973).

Desde setembro de 2019, ou seja, um ano antes da data de inauguração, que coincide com o centenário da fundação do Berlin Psychoanalytic Institut, a presente edição da Bienal compartilhou seu processo de pesquisa ao público local por meio de exposições em escala modesta, rodas de conversa, performances e workshop, na sede que alugou no bairro de Wedding. “The Crack Begins Within” [A rachadura inicia-se por dentro] é o título do epílogo, resultante de três momentos anteriores, as “exp. 1”, “exp. 2” e “exp. 3”.

Ao longo desses meses, reapareceram algumas temáticas que haviam pautado as atividades do Clube dos Artistas Modernos (CAM), espaço experimental que teve curta duração (1932-33) em São Paulo, cuja programação acolheu uma mostra de gravuras da artista alemã Käthe Kollwitz e o “Mês das crianças e dos loucos”. O CAM foi brutalmente fechado pela polícia “por atentado aos bons costumes” depois da estreia da peça O Bailado do Deus Morto, com figurinos, iluminação e cenografia do próprio Flávio de Carvalho. Junto com o psiquiatra Dr. Osório Cesar, o artista vinha desenvolvendo uma troca pioneira, no Brasil, quanto à percepção estética da produção visual de internos e sua inserção em museus de arte.

A curadoria desta edição da Bienal de Berlim apresenta obras do Museu de Arte Osório César, Franco da Rocha, e do Museu de Imagens do Inconsciente, Rio de Janeiro, chamando a atenção, em tempos distópicos, para a questão da saúde mental e pública, de um estado de vulnerabilidade vivenciado a nível global. Importante frisar o caráter inédito, para um evento de arte contemporânea, de reunir, também no Martin Gropius Bau, peças do Museo de la Solidaridad Salvador Allende (MSSA, Chile). Comum entre os doentes, o sentimento de “alienação”, de sentir-se “alheio”, “estranho”, “fora” de uma realidade, será encontrado também na experiência do exílio político, que levou chilenos a sair do país após o golpe militar de 1973. Embora com trajetórias incomparáveis, essas três instituições juntas representam “pequenas” vitórias decorrentes de esforços de indivíduos, a maior parte sem reconhecimento, que se destacam por uma resistência contra aparatos de repressão, sejam eles de natureza política ou baseados em premissas científicas (lobotomia).



Obra de Adelina Gomes (Coleção Museu de Imagens do Inconsciente, RJ - divulgação)

Sabendo que as “experiências” de Flávio de Carvalho foram contemporâneas das primeiras publicações de psicologia e antropologia, disciplinas então incipientes, esse ponto de partida serviu de álibi para abarcar conflitos que atravessam os séculos até hoje, notadamente os nacionalismos e fanatismos de massa, e, mais uma vez na história, questionar a validade do conceito de razão.

A luta antimanicomial da Dra. Nise da Silveira, que se traduziu na prática do afeto e do calor humano reinante nos ateliês de atividades expressivas, permitiu amenizar a dor psíquica do esquizofrênico, e nos revela a extraordinária potência da criação a despeito de pertencer a vidas danificadas. A 11ª Bienal de Berlim convidou outras iniciativas engajadas na “mudança dos tristes lugares que são os hospitais psiquiátricos”, notadamente “Debajo del sombrero” http://www.debajodelsombrero.org/, “La rara troupe” https://raraweb.org/, ou, ainda, o coletivo “Feminist Health Care Research Group” http://www.feministische-recherchegruppe.org/, cada qual com uma plataforma distinta, reunindo artistas em serviços de cuidados.

Fonte: divulgação por e-mail

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