BRASIL, São Paulo - Intelectual argentino radicado no México toma posse na Cátedra Olavo Setubal nesta terça, dia 6, às 17 horas


Imagem de divulgação da conferência de Canclini – Foto: Reprodução (Clique na imagem para ver o vídeo)

“Podemos dizer que há um processo internacional de desinstitucionalização da cultura, ou seja, instituições clássicas como centros culturais, cinemas, teatros e museus estão se modificando por muitos motivos”, afirma o antropólogo cultural Néstor García Canclini, em entrevista ao Jornal da USP, direto do México. Ele aponta um dos motivos para isso: a política neoliberal (leia abaixo a íntegra da entrevista).

Aos 80 anos, García Canclini é o primeiro nome internacional a assumir a Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, mantida em parceria com o Instituto Itaú Cultural. Professor da Universidade Autônoma Metropolitana da Cidade do México, ele toma posse em cerimônia virtual, nesta terça-feira, dia 6, às 17 horas, com transmissão pelo site do IEA.

Seu projeto de pesquisa na cátedra, intitulado A Institucionalidade da Cultura no Contexto Atual de Mudanças Socioculturais, trata justamente da “desinstitucionalização” da cultura – tema também de um encontro, a ser realizado durante a posse, entre García Canclini, o professor da USP José Teixeira Coelho Netto e a antropóloga social Carla Pinochet Cobos, da Universidade Alberto Hurtado, no Chile.

Constituída em 2015, a cátedra é formada por um comitê que seleciona, a cada ano, intelectuais, pesquisadores e estudiosos reconhecidos para assumir sua titularidade. “Neste momento de pandemia, queríamos trazer alguém de fora da Universidade e ampliamos o escopo territorial, o que acaba envolvendo também uma discussão geopolítica”, afirma o professor Martin Grossmann, coordenador acadêmico da Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência e colunista da Rádio USP. O próprio formato dessa titularidade, no caso a pesquisa, diz Grossmann, a torna distinta das demais. Além disso, informa, pela primeira vez, um projeto conta com a colaboração de um pós-doutorando, Juan Ignacio Brizuela, especialista em políticas culturais e interculturalidade.

Segundo Grossmann, García Canclini é um expoente em sua área de estudo e tem um longo interesse e forte presença no Brasil. Para o professor, sempre houve um certo descompasso entre o Brasil e as demais nações que conformam o que se denomina de América Latina, e é preciso entender o porquê dessa diferença. “García Canclini é um sociólogo, filósofo e antropólogo cultural que por sua intensa produção demonstra muito claramente como é importante criar essa leitura gestáltica, ou seja, não só das partes, mas do todo, pensando na complexidade do Brasil e no seu distanciamento de outros países. Relações essas que ele estuda de forma muito acertada”, garante Grossmann.

A escolha de García Canclini para a cátedra, como conta Grossmann, é também uma homenagem à sua produção, que começou nos anos 70 com mais ênfase, e que vem se desenvolvendo de forma contínua até hoje. “Quando acompanhamos essa produção singular, observamos sua preocupação acerca da influência do capitalismo na produção cultural, além das mudanças no próprio entendimento do que é a arte e o modo como é produzida. A arte passou por grandes mudanças no século 20 e García Canclini faz essa análise”, diz.

García Canclini nasceu na Argentina em 1939 e está radicado no México desde 1976. Possui doutorado em Filosofia pela Universidade de La Plata, da Argentina, e pela Universidade de Paris Nanterre, na França; já lecionou na USP e em universidades dos Estados Unidos, Espanha e Argentina. Em 2014, recebeu o Prêmio Nacional de Ciências e Artes do México. Uma de suas principais obras é Culturas Híbridas: Estrategias para Entrar y Salir de la Modernidad (1990), que recebeu menção honrosa do Prêmio Iberoamericano Book Award da Latin American Studies Association, de 1992. “É um livro seminal, que dá a possibilidade de entendimento sobre modernidade e interculturalidade”, resume Grossmann. O livro foi publicado no Brasil pela Editora da USP (Edusp).

“Instituições fora de lugar”
Com o tema provocativo Instituições Fora de Lugar, a conferência de posse de García Canclini traduz sua pesquisa. “De certa maneira, o professor antevê um processo de desinstitucionalização da cultura”, afirma Grossmann. “Como ele é um argentino no México, vem acompanhando a situação em diferentes países da América Latina. No Brasil, o que está acontecendo com a cultura, não só na esfera federal, é um desmonte de um grande esforço feito ao longo de décadas, principalmente a partir do fim do período militar, de colocar a cultura no centro. E García Canclini faz essa análise não só na esfera pública, mas na esfera privada, e mostra como isso afeta a representação do nosso país, local e globalmente.”

Além dessas análises, García Canclini apresenta outro componente importante ao estudar a teoria da comunicação e a influência das novas tecnologias, destaca Grossmann. “Ele é um pesquisador inquieto, que vai alargando seu campo de atenção e referência. E ele estuda essas transformações que muitas vezes têm como motivação a tecnologia”, afirma, citando outro livro de García Canclini, Lectores, Espectadores e Internautas (2007), resultado de sua pesquisa acerca da Inteligência Artificial, realizada no Center for Advanced Latin American Studies (Calas), um Centro de Estudos Avançados em Ciências Sociais localizado no México. “Vemos que ele vai se atualizando e nos ajudando a entender essas mudanças”, completa.

Grossmann também antecipa uma fala de García Canclini que demonstra seu afeto pelo Brasil: o novo catedrático diz que aprendeu, antes do tango, o samba e a bossa nova, uma referência aos ritmos da música brasileira, que por natureza é híbrida. García Canclini sucede na cátedra à biomédica Helena Nader e ao curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff, titulares em 2019. Os resultados dos trabalhos de Helena e Herkenhoff serão apresentados num livro em quatro volumes, com lançamento previsto ainda para este ano. “Depois de uma discussão centrada no Brasil, em torno de suas riquezas, mas também das dificuldades das relações entre arte, cultura e ciência, agora teremos uma visão mais ampla. García Canclini é interdisciplinar e não se restringe a um fenômeno único, o que nos ajuda muito a navegar na complexidade do Brasil”, conclui Grossmann.

A cerimônia de posse de Néstor García Canclini na Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência será realizada nesta terça-feira, dia 6 de outubro, às 17 horas, com transmissão pelo site do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. Não é preciso se inscrever.

Fonte: Jornal da USP - Cláudia Costa

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