SÃO PAULO, São Paulo - A cada edição o Ciclo de Cinema e Psicanálise (programa realizado pelo MIS, instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicanálise e a Folha de S.Paulo) traz debate on-line e ao vivo (com interpretação em Libras) sobre um filme, mediado por Luciana Saddi, coordenadora de Cinema e Psicanálise da Diretoria de Cultura e Comunidade da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP)


MIS SP (divulgação)

Em seguida, o público pode participar com perguntas, integrando novas perspectivas sobre a obra discutida. Na temporada #MISemCASA, as edições são quinzenais, e o público pode assistir ao filme antecipadamente em plataformas de streaming.

A primeira edição deste mês, no dia 09 de março, terça, às 20h, debate o filme Crimes de família (dir. Sebastián Schindel, Argentina, 2020, 99 min, 14 anos, disponível na Netflix), trama que acompanha Alicia (Cecilia Roth), uma mãe que se encontra desesperada para fazer com que seu filho Daniel (Benjamín Amadeo), acusado de tentar matar a ex-mulher, não seja preso. O longa argentino aponta para a complexidade das relações familiares e intimidade do lar burguês, onde convivem ternura, rotinas, festas, afetos, sonhos e, também, mentira, loucura, ignorância, narcisismo, abusos e violências. O bate-papo conta com a participação especial do diretor e roteirista do filme Sebastián Schindel e da médica psiquiatra e psicanalista Marta Úrsula Lambrecht.

Luciana Saddi, que conduz o debate e é responsável pela escolha dos filmes, comenta o filme à luz da psicanálise, trazendo elementos que serão levantados durante o bate-papo ao vivo: “Em trama muito bem construída, Alicia (Cecilia Roth) procura evitar que o filho Daniel (Benjamín Amadeo) seja preso, acusado de tentar matar a ex-mulher. Este breve resumo pode sugerir que Crimes de família seja mais um filme hollywoodiano do gênero tribunal. No entanto, o filme é argentino e supera em muito tal expectativa, ainda que haja julgamentos em curso e que ocorra investigação sobre o desenvolvimento dos fatos.

A narrativa é articulada entre duas vias sobrepostas. De um lado, em flashbacks, cenas do passado e do presente constroem a trama e apresentam os personagens, sobretudo Alicia, burguesa, vaidosa, mãe amorosa e capaz de tudo para proteger o filho. De outro, o processo, os ritos, os acontecimentos e a lógica próprios do tribunal e dos julgamentos. Por essas vias, somos introduzidos aos poucos, como se recebêssemos doses homeopáticas de realidade, a respeito da complexidade das relações familiares e intimidade do lar burguês. Segredos, acordos e desditos surgem.

Freud, a propósito do complexo de Édipo, afirmou que em Édipo Rei a carga dramática, trágica, comovia por remeter, inconscientemente, a desejos proibidos e anseios secretos dos homens. Matar o pai e desposar a mãe. Psicanalistas atestam ainda hoje a realidade de tais desejos e reconhecem a influência na formação da psique humana. A obra artística comove e perturba ao percorrer as sombras e os recantos mais remotos dos homens. O filme de Sebastián Schindel tem essa característica, além de inúmeras outras qualidades. Apresenta uma família pequeno burguesa convencional como muitas que conhecemos. Faz questão de demonstrar, desde as primeiras cenas, que amor e cuidado estão presentes. O filme também descortina as lutas intestinas no seio da família. Seria mais confortável acreditar que tais disputas de poder são características típicas das famílias monárquicas somente. Ou que acometem apenas famílias burguesas disfuncionais, que é como se costuma nomear de forma superficial abismos, tragédias, disputas, ausência, privações e conflitos domésticos. Explicitar a preponderância dos bens materiais na sociedade capitalista, que supera os vínculos amorosos, também faz sentido. Ainda que essas afirmações sejam verdadeiras (e são), a complexidade da família, bastião da tradição e moralidade – organização que sustenta nossa sociedade – parece nunca caber nas narrativas.

Crimes de família surpreende ao tecer rica trama, trabalhoso bordado, formada por fios tingidos por desejos inconfessos, cotidianos familiares, ternura, rotinas, festas, afetos simples e muitos sonhos. No avesso se assenta um emaranhado áspero constituído por perversão sexual, psicopatia, drogadição, mentira, loucura, ignorância, narcisismo, abusos e violências. Concluímos que nós e fios dispostos de maneira confusa, anárquica, sustentam o refinado desenho da família convencional e bem-comportada. A Justiça, por sua vez, no que tange às aplicações práticas, não se distancia tanto assim, como gostaríamos, do avesso emaranhado e sombrio que mantém intacto o desenho bordado e límpido da família.”

Sobre os debatedores
Marta Úrsula Lambrecht é médica psiquiatra, psicanalista, membro efetivo e docente, analista didata e analista de crianças e adolescentes da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Sebastian Schindel é diretor e roteirista do filme Crimes de família (2020). Estudou filosofia na Universidade de Buenos Aires e se especializou em tragédia grega. Estudou direção de fotografia na Escuela Nacional de Experimentación y Realización Cinematográfica. É sócio-fundador da produtora Magoya Filmes. Já dirigiu diversos documentários e séries para o Canal Encuentro. Em 2015, lançou seu primeiro longa de ficção, O patrão e, em 2019, O filho protegido. Os três filmes estão disponíveis na Netflix.

Serviço
Ciclo de Cinema e Psicanálise ao vivo | Crimes de família | #MISemCASA
09 de março, terça-feira, às 20h
No canal do MIS no YouTube

Fonte: Secretaria de Cultura e Economia Criativa SP

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