MARANHÃO, São Luís - No Maranhão, um projeto cultural, o "Amo, Poeta e Cantador", que utiliza a arte do 'graffiti' para homenagear personalidades dos tradicionais grupos de Bumba meu Boi do Estado, está transformando locais públicos, ou mesmo cedidos por instituições filantrópicas e culturais, em grandes "Murais da Memória"


Mestre Leonardo, obra do artista Gil Leros (divulgação)

Com a ressignificação desses espaços, geralmente próximos às sedes onde funcionam os grupos de Bumba meu Boi, o projeto pretende não só mudar a paisagem local e atrair turistas, mas chamar a atenção dos jovens dessas comunidades, para que se envolvam e participem, mantendo viva essa tradição folclórica secular.

Neste ano de 2021, o projeto "Amo, Poeta e Cantador: Murais da Memória pelo Maranhão" - por meio de uma parceria entre o artista plástico Gil Leros, graffiteiro reconhecido dentro e fora do estado do Maranhão, e o Bumba meu Boi da Floresta de Apolônio Melõnio, que em março do próximo ano completa 50 anos de fundação - irá confeccionar 10 murais da memória em sete cidades do Maranhão: São Luís (capital, com quatro murais), Axixá, Cururupu, Barreirinhas, Guimarães, Viana e São José de Ribamar.

Para angariar recursos para a sua realização, o projeto promoveu, entre os meses de outubro e dezembro do ano passado, uma campanha no modelo Machfunding. Nela, as doações feitas pelos apoiadores foram triplicadas numa parceria entre a Benfeitoria, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e o SITAWI Finanças do Bem, havendo a adesão de dezenas de pessoas físicas e jurídicas em todo o Brasil. Pessoas que agora fazem parte desse sonho.

A confecção dos murais, com a produção também de um documentário sobre o projeto e sobre a tradição do Bumba meu Boi, está prevista para acontecer entre os meses de abril a agosto de 2021. O primeiro grande mural foi graffitado no Centro de Saúde da Liberdade, nas proximidades do Centro Histórico de São Luís, entre os dias 19 e 23 de abril. O homenageado foi o mestre Leonardo, fundador do Bumba meu Boi e do Tambor de Crioula do bairro da Liberdade.
Hoje, dia 24 de maio, o artista Gil Leros e equipe do projeto chegaram à cidade de Axixá, a aproximadamente 100 quilômetros de São Luís, para iniciar a confecção do segundo grande mural da memória de 2021; dessa vez em homenagem ao músico, poeta, compositor, e fundador do Boi de Axixá (de sotaque de Orquestra), Francisco Naiva, que comandou a brincadeira por mais de 40 anos, vindo a falecer em 2013, aos 81 anos.

A imagem de Francisco Naiva será graffitada no muro da sede do Boi de Axixá, às margens da MA-402, onde passam diariamente centenas de carros com destino aos Lençóis Maranhenses ou à Rota das Emoções (cidades turísticas do nordeste brasileiro). Leila Naiva, filha caçula de Francisco Naiva, atual secretária de Cultura e Turismo de Axixá, recebeu do pai o legado e é quem comanda a brincadeira: "Assim como o meu pai, tenho me esforçado para que o Boi de Axixá não perca a sua essência. Quero manter vivo o nome e o legado dele", diz Leila.

NASCE A INSPIRAÇÃO
Cada uma das obras é assinada pelo artista Gil Leros. "O contato com uma obra fotográfica em 2015, fez nascer em mim o desejo de construir murais da memória pelo Maranhão. Na realidade, o sonho é bem maior, e espero um dia concretizar; que é confeccionar murais em cada estado brasileiro", declara o artista.

Gil Leros diz que o seu maior anseio, e de toda equipe organizadora do projeto "Amo, Poeta e Cantador", é promover o reconhecimento às personalidades que fazem do Bumba meu Boi uma das maiores expressões culturais do Estado, atraindo turistas de todo o Brasil e de outras nacionalidades.

"Acreditamos, ainda, que o uso da arte urbana do graffiti possa atrair o olhar da juventude maranhense, que, em sua grande maioria, não mantém muito contato com essa manifestação cultural, que é nossa, e precisa ser preservada", completa.


Mestre Zé Olhinho, obra do artista Gil Leros (divulgação)

HISTÓRIA DOCUMENTADA
Os grupos de Bumba Bois do Maranhão são divididos em sotaques, que fazem referência aos estilos, formas e expressões diferenciadas. Entre os sotaques, estão: Matraca (ou Ilha), Zabumba (ou Guimarães), Orquestra, Costa-de-Mão (ou Cururupu), e sotaque da Baixada (ou Pindaré). Cada sotaque tem características próprias, que se manifestam nas roupas, na escolha dos instrumentos, no tipo de cadência da música, e nas coreografias.

"Amo, Poeta e Cantador" é um projeto que pretende, além de homenagear, documentar a história de poetas, amos e cantadores de Bumba Meu Boi do Maranhão. As figuras dos amos, poetas e cantadores têm como função liderar e embalar a brincadeira com suas toadas, sendo pessoas simples, que dedicam suas vidas à cultura popular do Maranhão; e por isso merecem atenção e reconhecimento pelos seus feitos em vida.

A realização do projeto permitirá o contato constante da população com a obra artística a céu aberto que, por meio do graffiti, fará memória ao Bumba meu Boi para além do ciclo junino, bem como democratizará o acesso ao processo da obra e às histórias dos personagens que compõem o patrimônio, a partir do registro de todo esse processo em um documentário, que será disponibilizado nas plataformas digitais de audiovisual.

BUMBA BOI DA FLORESTA
Como patrimônio cultural, a manifestação do Bumba meu Boi do Maranhão insere-se na realidade do Estado de maneira a constituir fortemente a identidade coletiva da população, sendo constante sua presença nas festas juninas. Assim, no intuito de promover ainda mais sua importância, o projeto "Amo, Poeta e Cantador" vai homenagear alguns dos seus principais representantes em cidades maranhenses.

O Boi da Floresta, além de proponente, é um dos homenageados do projeto. Fundado em 12 de março de 1972, o Boi da Floresta nasceu por ideia de Apolônio Melônio, um dos brincantes do Maranhão mais antigos e respeitados pela sua experiência e vivência na fundação de vários grupos de boi, desde quando começou, ainda moço, em 1926.

Este boi representa o ritmo dos bois da região da Baixada Maranhense, chamado sotaque de Pindaré ou da Baixada – região onde o seu fundador nasceu, mais precisamente na cidade de São João Batista. Traz como estilo e vestimenta, os chapéus bordados, enfeitados de pena de ema, o personagem do cazumba, e um ritmo mais cadenciado e lento.

O grupo tem 150 componentes – mulheres, homens, crianças, jovens e adolescentes – divididos em atores, dançarinos e cantadores. O Bumba meu Boi da Floresta tem ainda um trabalho de formação com crianças e adolescentes, desenvolvendo atividades de bordado, confecção de careta cazumba, chapéus e instrumentos de percussão.


Artista Gil Leros (divulgação)

O ARTISTA GIL LEROS
Gilmartim Meneses da Silva, mais conhecido no meio artístico como Gil Leros, nasceu em Tucuruí (1985), no Pará, e mudou-se para São Luís aos 13 anos. No fim dos anos 90, teve contato com a cultura Hip Hop local, passando à prática do graffiti nos muros da cidade, dando início ao aprimoramento das suas técnicas de pintura e comunicação visual, por meio de atividades voltadas à arte de rua.

Na juventude, estudou Arquitetura e Urbanismo, o que agregou uma nova visão de urbanismo, e enveredou seus trabalhos também para as intervenções urbanas e o uso da arte na valorização dos volumes arquitetônicos e na requalificação urbana. Ao longo do tempo, estendeu suas habilidades artísticas a outras áreas, sempre envolvendo sua identidade plástica a vertentes como arquitetura, música, fotografia e movimentos culturais da cidade.

O artista possui projetos em andamento, como o "Mural Natural", "Amo, Poeta e Cantador", e "Mete o amor, forte!", com técnica e produção artística singulares, o que o leva a ser um singular personagem no que diz respeito à estética e à representação de sua cidade. Carrega consigo uma identidade urbana inconfundível e repleta de possibilidades, unindo a trajetória pessoal, o saber fazer do graffiti e as manifestações culturais do Maranhão.

SERVIÇO
"Amo, Poeta e Cantador" faz homenagem ao Mestre Francisco Naiva, do Boi de Axixá
QUANDO: 24 a 27 de maio.
ONDE: Sede do Boi de Axixá, às margens da MA 402, na cidade de Axixá/MA.

Fonte: divulgação por e-mail

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