SÃO PAULO, São Paulo - Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin amplia plataforma que dá acesso a mapas e relatos sobre o Brasil


Arte de Lívia Magalhães com imagens de Freepik e Flaticon

Como o escritor modernista Mário de Andrade se sentiu como “penetra” numa festa de casamento no coração da Amazônia? Para saber isso, basta consultar os relatos do modernista publicados no Atlas dos Viajantes no Brasil, uma plataforma da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) que reúne textos e imagens produzidos por viajantes brasileiros e estrangeiros no País do século 16 ao 20. Por meio dos mapas e rotas interativas é possível conhecer registros a respeito da fauna, flora, economia, política e sociedade de vários períodos da história do Brasil. Além dos relatos de Mário de Andrade, textos de outros nove viajantes acabam de ser incluídos na plataforma.

Relatos de viagens não se resumem a um gênero literário, são testemunhos das transformações de espaço e tempo, como afirma o professor Alexandre Moreli, vice-diretor da BBM e coordenador do projeto. “Com essas ferramentas tecnológicas, os relatos se tornam muito mais acessíveis e interessantes para aqueles que querem conhecer nossa história, nossa cultura e até mesmo as conexões que os espaços hoje brasileiros criaram com os viajantes.”

A primeira etapa da plataforma digital foi executada entre 2018 e 2019, quando foram disponibilizadas sete viagens. Segundo João Cardoso, curador da BBM e também coordenador do projeto, a principal inspiração da plataforma foram as centenas de relatos de viagem que a BBM guarda em seu acervo: uma fonte importante de informações e visões sobre o Brasil. Ele ressalta que a enciclopédia serviu de referência a projetos que associam conteúdos históricos, iconográficos e literários a mapas digitais. “Mesmo de maneira remota, no segundo semestre de 2020, teve início a segunda fase do projeto, com a inclusão no banco de dados de informações sobre georreferenciamento com mais precisão, resultando em dez novas viagens no Atlas com aprimoramentos”, destaca.


No Atlas é possível filtrar por local, obra, autor, assunto, ocupação, país de origem e mídia – Foto: Reprodução/Atlas BBM

Esses aprimoramentos atiçam a curiosidade dos exploradores virtuais. Estes ficam sabendo, por exemplo, que em 1913 o ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt (um dos viajantes selecionados) visitou o Instituto Soroterápico de São Paulo (atual Instituto Butantan) e foi recebido pelo seu primeiro diretor, o médico Vital Brasil. Em seu relato, Roosevelt comenta como o soro antiofídico produzido pelo instituto contribuiu para diminuir a morte por picadas de cobra no Estado de São Paulo. Mas, 150 anos antes, em uma viagem pela Amazônia, o português Francisco Xavier Sampaio recomenda caldo de cana ou cachaça como ótimo remédio para a picada de jararaca. “Por esses dois exemplos, nota-se que nem pesquisas sérias e de consequências positivas nem indicações de remédios ineficazes feitas por autoridades políticas são uma novidade na história do Brasil”, ressalta o curador da BBM.

Outra curiosidade que se encontra no Atlas é o episódio da viagem do engenheiro de origem afro-brasileira Teodoro Sampaio pelo sertão baiano entre 1879 e 1880, como aponta o geógrafo Ian Chaves, responsável pela cartografia do projeto. Na descrição de Sampaio, há a tomada da cidade de Carinhanha por um grupo de marginais à lei. Astuciosamente, ao permanecer neutro, Sampaio não só teve a vida poupada como pôde relatar a expulsão do delegado e de outros agentes públicos da cidade. Além de testemunhar o controle do local, observou uma correspondente celebração, um grande churrasco feito em praça pública por um grupo de sertanejos. “Com relatos detalhados das tensões, angústias e medos, Sampaio pôde observar tanto a fuga dos habitantes de Carinhanha rio acima como a ação de tais grupos marcando a história da região do oeste da Bahia”, destaca Chaves.

Há vários registros de outros aventureiros expostos no Atlas, que contempla quase todo o território brasileiro: da viagem do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) pelo Sul, passando pelas expedições do etnólogo alemão Karl von den Steinen (1855-1929) às regiões Centro-Oeste e Norte e pelas visitas ao interior do Nordeste feitas pelo naturalista britânico George Gardner (1810-1849).

Do ponto de vista cronológico, as rotas se estendem do final do século 16, com a viagem do jesuíta Fernão Cardim (c. 1549-1625), até a década de 1920, com as viagens de Mário de Andrade (1893-1945).

O Atlas se enriquece ainda com as viagens da naturalista e etnóloga Teresa da Baviera (1850-1925), do militar português Luís D’Alincourt (1787-1839) e do fazendeiro britânico Henry Koster (1793-1820). Somados aos viajantes que já estão na plataforma, o projeto se torna um verdadeiro caleidoscópio de tempos, espaços e visões de mundo.

Com o Atlas mais diverso nesta segunda etapa, observam-se vários pontos de vista, expostos por missionários, naturalistas, engenheiros, artistas e etnólogos, por exemplo. Com isso, a plataforma digital mostra assuntos que antes eram negligenciados, como o cotidiano de negros escravizados e suas culturas e práticas religiosas e hábitos alimentares indígenas.

“De forma lúdica, essa singular enciclopédia digital tem o potencial de servir a pesquisadores de muitas áreas do conhecimento e a professores e alunos da educação básica”, afirma o professor Moreli. É possível descobrir, por exemplo, o que comia uma família mineira do século 19, a forma como os tupinambás do século 16 educavam seus filhos, as festas populares no Nordeste do início do século 20 e as doenças que atacavam os habitantes de Belém às vésperas da Independência.

O curador João Cardoso ressalta que as novidades não devem parar: “Há um esforço para buscar novas parcerias a fim de prosseguir com a ampliação e o aprimoramento do projeto”.

O Atlas dos Viajantes no Brasil está disponível no endereço www.viajantes.bbm.usp.br.

Fonte: Jornal da USP - Juliana Alves

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