MINAS GERAIS, Belo Horizonte - Organizada pelo Projeto República da UFMG e publicada pelo Senado, coletânea evidencia que movimento transcendeu os arranjos das elites

A Independência do Brasil não se deu em razão do suposto heroísmo de Dom Pedro (ou de um mero arranjo que ele teria conseguido com o seu pai, Dom João VI), mas foi resultado de intensa e complexa mobilização popular no espaço público, ocorrida ao longo dos primeiros anos da década de 1820.

A prova dessa mobilização – que extrapolou a mera articulação de uma pequena elite dirigente – são as centenas de panfletos escritos e distribuídos ao longo do período, muitos já catalogados e estudados, que ajudaram a inflamar o debate sobre da emancipação do Brasil.

Por iniciativa do Senado Federal, 21 desses panfletos estão sendo trazidos a público agora em sua versão original, por meio do volume Vozes do Brasil: a linguagem política na Independência (1820-1824).

Organizado pela historiadora Heloísa Starling, professora do Departamento de História da UFMG e coordenadora do Projeto República, e Marcela Telles, pesquisadora do projeto, o livro reúne os panfletos que integram a coleção do escritor, diplomata e historiador brasileiro Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), atualmente sob os cuidados da Universidade Católica da América, em Washington, nos Estados Unidos.

“Todos os panfletos são inéditos”, conta Heloísa Starling. “Nenhum havia sido publicado antes no Brasil, estão guardados há cem anos em Washington. E não estavam digitalizados”, ela explica.

A pesquisadora comemora o fato de, agora, esse material estar disponível para ser consultado por qualquer pesquisador, em qualquer lugar do mundo. “Como disse o senador Randolfe Rodrigues no lançamento do livro, ‘cem anos depois as vozes desses brasileiros voltaram para casa’”, salienta a historiadora.

História pouco conhecida
No paratexto da obra, Heloísa Starling – que integra a comissão especial do Senado destinada a elaborar as comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil – detalha a seleção escolhida para compor o volume. “Estão incluídos panfletos editados no Brasil e em Portugal, mas que circularam no lado de cá do Atlântico, abordando temas e eventos que animaram o debate público no Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Maranhão e Grão-Pará.”

No livro, cada panfleto conta com uma nota introdutória, em que são fornecidas informações sobre o contexto histórico imediato que ocupou a atenção do autor e motivou a sua escrita. Além disso, a obra traz dois ensaios, um sobre a história e a linguagem própria desse gênero literário e outro sobre a sua utilização no contexto específico da emancipação brasileira. “Os panfletos escritos à época da separação do Brasil de Portugal contam uma história ainda pouco conhecida por nós”, registra a historiadora.

Para Heloísa, “ouvir” hoje as vozes das pessoas que escreveram esses panfletos “possibilita compreender alguns de seus motivos e entender melhor a maneira como a intensidade política daqueles anos foi vivida pelos brasileiros”. Ela complementa: “Permite-nos refletir também que, para além de príncipes e imperadores, a História da nossa Independência foi forjada pela luta de homens e mulheres valentes de muitas cores e modos, que viviam nestas terras – vozes que se calaram por um tempo e que agora temos a oportunidade de ouvir.”

Guerra de ideias
A Editora UFMG já publicou dois volumes sobre os panfletos da Independência. Lançado em 2014, o livro Às armas, cidadãos! Panfletos manuscritos da Independência do Brasil (1820-1823) traz uma seleção de duas dezenas de panfletos. No ano seguinte, praticamente todos os panfletos que resistiram ao tempo foram reunidos na coleção Guerra literária - Panfletos da Independência (1820-1823), que tem quatro volumes e mais de três mil páginas. Os dois livros foram organizados por Marcello Basile, José Murilo de Carvalho e Lúcia Bastos.

“Os panfletos da Independência dizem muito sobre um momento da nossa vida política em que as pessoas combateram e defenderam formas distintas de pensar, propuseram alternativas, formularam demandas”, pontua Heloísa Starling. “De muitas maneiras, elas transformaram o espaço público e se debruçaram com genuíno interesse sobre os caminhos que poderiam ser traçados para quem quisesse conceber projetos de país. Alguns brasileiros programaram um país independente, governado a partir do Rio de Janeiro, por uma monarquia constitucional. Outros, contudo, sonharam com um projeto mais próximo do que tentavam enxergar na América inglesa e imaginavam um Brasil republicano e federativo. E, é claro, havia também quem desejasse permanecer onde estava; não mais como colônia, mas parte constitutiva de um grande império luso-brasileiro.”

Lançado em sessão remota do Senado no fim de setembro, o volume Vozes do Brasil pode ser baixado gratuitamente pela internet.

Livro: Vozes do Brasil: a linguagem política na Independência (1820-1824)
Organizadoras: Heloísa Starling e Marcela Telles de Lima
Edições do Senado Federal - Vol. 287
404 páginas / R$ 32 (impresso) e gratuito (e-book)

Livro: Guerra literária - Panfletos da Independência (1820-1823) - 4 volumes
Organizadores: Marcello Basile, José Murilo de Carvalho e Lúcia Bastos
Editora UFMG
3.256 páginas / R$ 120

Livro: Às armas, cidadãos! Panfletos manuscritos da Independência do Brasil (1820-1823)
Organizadores: Marcello Basile, José Murilo de Carvalho e Lúcia Bastos
Editora UFMG
238 páginas / R$ 42

Fonte: UFMG - Ewerton Martins Ribeiro

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