AMAZONAS, Manaus - A instalação 'Nem tudo que reluz é ouro', da artista plástica Simone Fontana Reis, cujo objetivo é provocar reflexão sobre tecnologias e conhecimentos pré-colombianos brasileiros, visando em especial o resgate de valores de etnias amazônicas, poderá ser vista de 14 de junho a 20 de agosto no Paiol da Cultura, dentro do Bosque da Ciência do INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI), em Manaus, AM.

Para tal, a artista incorpora a Terra Preta de Índio e gestos de sua feitura, no fazer artístico. Cobre as paredes do espaço expositivo, que tem 24 metros, com um composto de Terra Preta e usa réplicas de cacos cerâmicos ancestrais nela encontrados, que transformados em bronze, brilham como o ouro do imaginário europeu.

Simone pontua que "os invasores europeus falharam em reconhecer a importância da Terra Preta e a enorme realização desses nativos. Sedentos por achar ouro, não enxergaram o verdadeiro Eldorado: um método de cultura e estilo de vida totalmente adaptado ao ambiente, à forma como transformavam a paisagem, enriquecendo o solo, nada desperdiçando, selecionando e domesticando espécies, usando a força das águas e seus ciclos, sem fome e sem doenças - bem diferente da realidade da Europa do século XVI."

A escolha do local para a instalação não foi aleatória, já que o Paiol da Cultura, concebido pelo arquiteto Severiano Mario Porto, remete à escavação de um sítio arqueológico, por estar encravado na terra. E, ainda, como nos buracos de confecção de Terra Preta, o Paiol é um espaço arredondado e no meio da floresta. Simone sinaliza que o espaço "nos clama a uma imersão reflexiva, a um momento de pausa e interação com o subsolo, como num útero, uma volta às raízes: que antigos preconceitos e comportamentos possam dar lugar ao surgimento de novas formas de enxergar a história."

A instalação 'Nem tudo que reluz é ouro' fala, sobretudo, da importância da civilização nativa brasileira e o resgate da nossa cultura. A Terra Preta e os grafismos contidos nos cacos nela encontrados nos remetem ao papel da mulher na sociedade e à preservação da floresta. Segundo a curadora, Katia Canton, a artista defende que a tecnologia da Terra Preta indígena era passada de mãe para filha como uma herança silenciosa – informação encontrada no livro Terra Preta, da cientista política alemã Ute Scheub. A partir de resíduos, restos de alimentos, plantas, excrementos, carvão, cacos cerâmicos e outros componentes submetidos a uma queima filtrada de baixo teor de oxigênio, talvez sem querer ou talvez conscientemente, estas mulheres faziam com que o carbono e os nutrientes ficassem retidos na mistura ao invés de migrarem para a atmosfera, tornando esta terra fertilíssima.

Depositado em potes cerâmicos, esse preparo, ao ser queimado, exala fumaça e tem o poder de regenerar toda a terra ao redor. Eis um poder feminino: a criação de uma terra que nutre e se multiplica, a invenção de uma tecnologia singular, de temporalidade expandida e plena. Por ser um método de sequestro de carbono, esta tecnologia tem grande potencial para reverter o aquecimento global. Dialoga com a antropologia, a agricultura, a ecologia e a sustentabilidade e com problemas crônicos como a pobreza, a fome e a falta de água. Além de questionar noções arraigadas sobre o que é ser civilizado ou o que significa ser uma sociedade desenvolvida.

Como nasceu o projeto para a instalação 'Nem tudo que reluz é ouro'
Foi durante sua imersão artística no programa Labverde, www.labverde.com no qual a artista passou 15 dias na Reserva Florestal Adolpho Ducke na Amazônia e onde entrou em contato com os pesquisadores do INPA, que tudo começou. Naqueles dias, Simone teve contato com o pesquisador, e seu orientador durante o processo artístico Charles Clement, um dos defensores da teoria do Jardim Cultivado com a domestificaçao da Amazônia.

Labverde é um programa voltado para criadores que desejam compreender e refletir sobre a natureza e a paisagem. Uma vivência intensiva, na área natural mais importante do planeta, para estreitar as relações entre a ciência, a arte e o meio ambiente.

Sobre a Terra Preta
O estudo da Terra Preta comprova que a Floresta Amazônica, que por séculos foi idealizada como uma paisagem intocada, inabitada, verde e virgem, é na verdade um imenso jardim cultivado - uma floresta antropogênica que revela valiosos conhecimentos sobre nossos antepassados, seus hábitos, crenças, comportamentos e organização social. Os ameríndios estavam terra-formando a Amazônia, quando Colombo apareceu e interrompeu o processo. Foi através da confecção da Terra Preta e o cultivo sustentável, fruto de observação, insights e experiências dos habitantes nativos, que se tornou possível a vida de uma civilização sofisticada e densa na Amazônia por vários milênios.

Bosque da Ciência
O Bosque da Ciência foi inaugurado em 1º de abril de 1995. Sua abertura comemorou o quadragésimo aniversário do Inpa. O espaço, que está localizado na Zona Centro-Sul de Manaus, tem aproximadamente 13 hectares. O Bosque tem como objetivos desenvolver e promover o programa do Inpa para a difusão tecnológica, científica e de inovação, além de oferecer à população local uma opção de lazer que possa contribuir para a sua educação cultural e ambiental.

O local recebe cerca de 140 mil visitantes por ano. O espaço fica dentro do Inpa, com entrada pela Rua Otávio Cabral, bairro Petrópolis, com funcionamento normal de terça a sexta-feira, das 9h às 12h, e das 14h às 16h30 (entrada), e aos sábados, domingos e feriados das 9h às 16h30 (entrada). Na segunda-feira, o espaço é fechado para manutenção.

Mais informações sobre o Paiol da Cultura
De acordo com o Inpa, antes da criação do Bosque da Ciência, o local era usado como depósito de produtos inflamáveis utilizados nas pesquisas do instituto. Com a criação do Bosque, em 1º de abril de 1995, o espaço se transformou em Paiol da Cultura por um período de 17 anos e depois serviu como sala de aula.

Sobre Simone Fontana Reis
Simone Fontana Reis nasceu em São Paulo, 1965. Fez mestrado em Londres, na Central Saint Martins College of Art and Design, graduou-se em 2014. Suas práticas e expressões artísticas navegam entre pinturas, esculturas, instalações e vídeo.

Por ser uma apaixonada por florestas, há 20 anos, a artista pesquisa plantas e orquídeas. O interesse pela floresta levou-a a descoberta da comunidade indígena Kadiueu no Brasil Central, povo que ela visita regularmente, deixando-se influenciar por seus desenhos. Participou de diversas exposições em: Londres, São Paulo, Nova Iorque e Suécia, onde viveu por 8 anos. No seu trabalho de colaboração com cientistas na London School of Tropical Medicine, teve seu trabalho premiado. Foi nominada para New Sensation- 2014 pela Saatchi Art e Hot-One-Hundred- Schwartz Gallery, Londres. Em 2016, participou da residência Labverde, onde entrou em contato com pesquisadores do INPA. Participa neste momento do 66º Salão Paranaense no Museu Oscar Niemeyer- Curitiba.

Serviço
Instalação: 'Nem tudo que reluz é ouro'
Visitaçào: de 15 de junho a 20 de agosto
Local: Paiol da Cultura | Bosque da Ciência | INPA
Endereço: Av. Bem Te Vi (antiga Rua Otávio Cabral), s/n,
Petropolis – CEP: 69067-001
(anexo à Sede do INPA)
http://bosque.inpa.gov.br/bosque/
Horário de visitação: terça a sexta-feira, das 9h às 12h e das 14h às 16h30
Sábados, domingos e feriados das 9h às 16h30
Entrada franca
Agendamento de visitas: 3643-3192/3643-3293
E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.; Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Fonte: divulgação por e-mail

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