MINAS GERAIS, Belo Horizonte - As margens do Rio São Francisco e seus afluentes abrigam parte do sertão mineiro, um território de personagens, crenças, lendas, saberes populares, manifestações culturais, religiosidade e veredas. E é com esse pano de fundo que João Guimarães Rosa criou uma obra literária universal, “Grande Sertão: Veredas”, que completa 60 anos em 2016.

O romance narrado em primeira pessoa foi publicado em 1956 e é relatado pelo personagem Riobaldo, ex-jagunço, que aborda suas lutas, seus receios e o amor por Diadorim.

O professor de literatura e filosofia do CEFET, João Batista Santiago, mineiro de Juruaia, é um especialista no assunto. O autor do livro “Mundanos Fabulistas – Guimarães Rosa e Nietzsche”, da editora Crisálida, avalia a importância da obra de Rosa. “Ele criou um livro de total prestígio do ponto de vista cultural, poético e da linguagem. A forma como ele aborda a sociedade, a mistura de todas as lendas e os acontecimentos mostra um mundo misturado, uma verdadeira inversão de ordem, momento que vivenciamos atualmente”, comenta.

Considerado por muitos uma leitura complexa, Rosa utiliza de uma linguagem própria, que envolve metáforas, frases invertidas e palavras inventadas. “Ele radicaliza a linguagem, procura não cair no senso comum, não virar mercadoria. Por isso, pede ao leitor mais do que objetividade, pede um aprofundamento. Para os mais jovens, é importante que o incentivo a esse tipo de leitura se torne hábito em casa. Os pais são os grandes incentivadores, mas os professores também devem procurar levar a literatura para a sala de aula”, explica Batista.

Guimarães Rosa pelas Minas Gerais:

Conto O recado do Morro
A cidade de Morro da Garça, localizada na região central do Estado, é dotada de lindas paisagens e cerrados. Ela foi destaque no conto “O recado do morro”, do livro “No Urubuquaquá no Pinhém” de Guimarães Rosa, fazendo do lugar um cenário para seus personagens. No enredo, um aviso de morte à traição dado pelo morro vai passando de boca em boca através de personagens excêntricos, até chegar ao músico Laudelim, que transforma a mensagem corrompida em uma canção.

Em homenagem ao escritor, a cidade promoveu em janeiro o evento XXII Encontro de Arte e Cultura ao Pé da “Pirâmide do Sertão”, que trouxe oficinas, rodas de conversa, apresentações, além de contações de estórias baseadas no universo de Guimarães Rosa.

Museu de Sagarana
A cidade de Itaguara, na qual o escritor atuou como médico, criou, em 2009, por meio do Fundo Estadual de Cultura, um museu com o mesmo nome que intitula o livro de contos Sagarana, em homenagem ao escritor. Atualmente, estão reunidas no acervo doações da filha de Rosa, Vilma Guimarães Rosa, como objetos pessoais e livros raros do pai.

O Caminho do Sertão - De Sagarana ao Grande Sertão: Veredas
Diálogos, saraus, intervenções artísticas e oficinas são algumas das atividades da programação do projeto “O Caminho do Sertão”, que promove um mergulho socioambiental e literário no universo de Guimarães Rosa e no cerrado sertanejo das Gerais, percorrendo parte do caminho realizado por Riobaldo, personagem central do livro Grande Sertão: Veredas, rumo ao Liso do Sussuarão. O projeto, que ocorre entre os dias 2 e 10 de julho, foi viabilizado por meio de convênio firmado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, junto a Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia.

“O projeto busca resgatar as obras de Sagarana e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e a cultura mineira abordada nelas. Queremos que as pessoas não só compreendam os livros, mas que possam vivenciá-los, sentir o sertão”, explica Irene Gomes, 43 anos, secretária executiva.

Museu Casa Guimarães Rosa
O Museu Casa Guimarães Rosa, administrado pela Superintendência de Museus e Artes Visuais, instalado em Cordisburgo, cidade natal de Rosa, é concebido como centro de referência da vida e obra do escritor. Em todos os cômodos o visitante tem contato com a reprodução de trechos de obras, texto crítico, com o fac-símile das correções que o autor fazia nos textos e com a história editorial de livros. Abaixo texto poético do Secretário de Cultura de Minas Gerais, Angelo Oswaldo, em homenagem ao autor:

Ó Deus salve o oratório!
O Museu Casa de Guimarães Rosa integra, de modo esplêndido, o autor em seu universo literário. Instala-se na casa natal do menino João, com os cômodos de morar e o comércio do Sr. Florduardo Rosa, e nela aninha o mundo roseano, presente em cada detalhe luminoso da venda/vivenda.

Entra-se num conto. Da janela, percebe-se uma vereda. Varamos o sertão sem fim. Estamos todos dentro do cosmo em que Guimarães Rosa pôs em órbita algumas das mais belas obras da literatura de língua portuguesa e do espírito humano.

Cuidar desse museu, no coração de Minas Gerais, o querido Cordisburgo, torna-se a maior homenagem ao mestre de “Sagarana”. Maquiné é a catedral do sertão, mas na casa da família Rosa está a ermida do ex-voto, na qual bendizemos o ficcionista e o sertanejo que ele nunca deixou de ser, e o seguimos na travessia.

Fonte: SEC MG

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