MINAS GERAIS, Belo Horizonte - Em palestra no Festival de Inverno, líder indígena analisou os efeitos da 'necropolítica, que destrói nosso acervo comum'


Krenak: esforços feitos para a construção de uma cultura nacional estão comprometidos (Raphaella Dias/UFMG)

No audiovisual e em outros campos, os brasileiros foram atraídos, especialmente ao longo dos últimos 20 anos, pela ideia de engajar sua produção cultural a um mecanismo de distribuição, multiplicação e atribuição de valores capitalistas, com vistas ao mercado de consumo, discriminando a produção que não se enquadrasse nesse mercado. "Essa aproximação acrítica entre cultura e mercado nos deixou fragilizados", avaliou o pensador e líder indígena Ailton Krenak em palestra ministrada na última sexta-feira, 18, no 52º Festival de Inverno UFMG.

O ativista caracterizou os governos anteriores ao atual como “um curto período em que o Estado passou a investir e a incentivar diferentes nichos culturais a seguirem produzindo e a se manterem vivos e ativos. Esse ambiente nos iludiu, nos fez pensar que estávamos nos tornando modernos e globalizados", disse ele.

Krenak lembrou que um dos frutos do período em que houve investimento público na cultura foi a relevante produção do audiovisual de autores indígenas, “dando vazão a novos discursos e performances, invenções e inovações”. Por outro lado, o cenário foi gerador das críticas segundo as quais “artistas são oportunistas e vivem de patrocínio”.

“Antes mesmo de o atual governo desmantelar o sistema público da cultura, desativando o Ministério, desestruturando programas e retirando orçamento, vivenciamos o episódio [em 2017] em que um grupo, em frente ao Palácio das Artes, ameaçou e ofendeu artistas”, relembrou Krenak. Segundo ele, está em vigor uma “guerra interna” promovida pela administração do país contra o campo da cultura. “Passamos a ser confrontados por ministros que vêm a público ofender a produção cultural brasileira e acusar o campo da criação artística de oportunista, parasita, composto de pessoas que vivem de patrocínio. É uma ofensa que nega de onde vem a cultura”, disse.

Resistência
De acordo com ele, houve um esforço, especialmente ao longo dos últimos 80 anos, para constituir algo que pudesse ser percebido, tanto no Brasil quanto no exterior, como cultura brasileira. “Nos anos 60 e 70, muita produção foi voltada para a ideia de retomar a Semana de Arte Moderna de 1922, configurar signos e símbolos que a gente reconhecesse como cultura nacional. Marchamos nesse sentido até a Assembleia Constituinte de 1988, que promoveu uma ampla visão dos direitos culturais e da ideia de que o Estado brasileiro deveria prover meios para que essa produção florescesse”, lembrou.

No entanto, para Aílton Krenak, o Estado brasileiro adere hoje ao que chamou de “necropolítica”, referindo-se à “destruição ambiental e cultural do nosso acervo comum, do que a gente poderia entender como nossa cultura”. “Essa guerra atinge, de maneira mais violenta, a população carente, excluída do aparato capitalista. Afeta a afirmação da nossa identidade. Mas, diante dessa violência, artistas de diferentes lugares, em múltiplos tons, trazem suas vozes, desenhos, cores, filmes e narrativas e nos lembram que podemos pensar nossa constante e ativa produção sem virar refém daquilo que o Estado projeta como produção cultural”, observa.

Trajetória
Ativista indígena dos direitos humanos, Ailton Krenak nasceu no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Em 1987, participou dos debates da Assembleia Nacional Constituinte. Na década de 1990, criou o Festival de Danças e Culturas Indígenas, na Serra do Cipó. Como jornalista, apresentou a série Índios no Brasil, no Canal Futura, em 1998.

Em 1987, recebeu o Prêmio Internacional de Direitos Humanos para a América Latina Letellier Moffite, da Fundação Letellier, em Washington (EUA). Em 1989, foi contemplado com o Prêmio Onassis – Homem e Sociedade, pela Fundação Aristóteles Onassis, em Atenas. Em 2008, recebeu a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Brasil. Em janeiro de 2016, foi condecorado com o título de Professor Honoris Causa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

As atividades do Festival de Inverno estão sendo transmitidas no canal UFMG Cultura no You Tube. A programação segue até 23 de setembro, com palestras que integram o Seminário Culturas em Pensamento, rodas de conversa e apresentações culturais.

Fonte: UFMG - Matheus Espíndola

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