SÃO PAULO, São Paulo – A nobre Charlotte de La Tour publicava em 1819, na França, Le langage des fleurs, uma obra que conferia a cada tipo de flor um significado específico relacionado às experiências do amor romântico


Foto: João Carlos Medau/Wikimedia Commons)

O sucesso do livro de La Tour na Europa e em países do continente americano atravessou o século XIX e incentivou a publicação de outros títulos de semelhante teor. Não demorou para que a linguagem das flores chegasse ao Brasil. No entanto, aqui, recebeu a roupagem de um dicionário de consulta ligeira voltado sobretudo às práticas sociais do namoro.

Em A linguagem sentimental das flores e o namoro às escondidas no Rio de Janeiro do século XIX (Editora Unesp, 2022), a antropóloga na Alessandra El Far recupera a presença desse código amoroso no cotidiano da corte imperial, uma sociedade marcada por diversas outras estratégias veladas de cortejo. O estudo foi apoiado pela FAPESP. 

O livro, publicado também com apoio da FAPESP, analisa a presença de um gênero literário bastante popular no século XIX, tanto na Europa quanto no Brasil, chamado Linguagem das Flores, que se constituía em uma espécie de dicionário amoroso no qual cada flor correspondia a uma palavra ou sentença curta relacionada ao universo do namoro e do cortejo.

“Nesses livros, por exemplo, um botão de rosa branca tinha por significado a afirmação ‘Nunca deixarei de amar-te’, um cravo amarelo a palavra ‘Desprezo’; já uma dália cor de cana colocava a questão: ‘Será em vão meu amor?’”, exemplifica El Far, em entrevista para a Agência FAPESP.

Segunda a antropóloga, em particular na cidade do Rio de Janeiro, naquela época da corte imperial, essa linguagem simbólica estava estreitamente relacionada ao cotidiano do cortejo dissimulado e do namoro às escondidas. “Isto porque, em uma sociedade ainda marcada pelo patriarcalismo, eram os pais que decidiam sobre o matrimônio dos filhos e, nessa conjuntura, o namoro oficial deveria ocorrer na presença dos familiares, ser curto e necessariamente levar ao casamento”, explica.

A obra também mostra que as flores não eram as únicas estratégias de cortejo. “O que concluí, após uma extensa pesquisa nos arquivos cariocas, foi, na verdade, que, em paralelo às convenções sociais, inúmeras estratégias de conquista amorosa e encontros clandestinos ocorriam por meio de linguagens e códigos que usavam objetos como as flores, frutos e folhas, mas também tudo o que fazia parte da vida cotidiana, como leques, bengalas, cores, chapéus, e até mesmo gestos corporais, para dar vez a um diálogo silencioso e secreto entre duas pessoas”, comenta El Far.

Para obter os dados necessários detalhados no livro, ela enfatiza o apoio da FAPESP: “Para a realização dessa pesquisa, o apoio financeiro que recebi da FAPESP foi fundamental. Em um primeiro momento, para pesquisar nos arquivos cariocas como a Biblioteca Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura, e, em seguida, para levantar no vasto acervo da Bibliothèque Nacionale de France, em Paris, onde permaneci por dois meses, dezenas de edições de Le langage des fleurs”.

A antropóloga também destaca como o estudo lhe proporcionou uma leitura histórica do universo amoroso: “A pesquisa me permitiu vislumbrar também todo um conjunto de sentimentos relacionados ao universo amoroso, o que constitui algo muito especial à história da vida privada no Brasil. Posso citar aqui a título de exemplo: a alegria arrebatadora ao poder simplesmente ver a pessoa amada, os incessantes pedidos de resiliência diante das dificuldades enfrentadas entre os namorados que não tinham a permissão dos pais para se ver, os lamentos e angústia decorrentes das ausências e as esperanças em torno de um possível encontro”.

O livro tem 248 páginas e pode ser comprado na loja virtual da Editora Unesp por R$ 68.
 
Fonte: Agência FAPESP

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